terça-feira, 3 de abril de 2018

BREJO SÃO CAETANO (MANGA, MG) SEDE DA PRIMEIRA MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO DA MANGA


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva**) O Sertão dos currais do rio São Francisco, ou seja, o trecho médio do Velho Chico próximo, ao sul, aos rios Verde e Carinhanha foi o berço da ocupação colonial do que mais tarde viria a ser Minas Gerais. Um dos primeiros núcleos habitacionais foi o arraial de São Caetano do Japoré, atualmente Brejo São Caetano no município de Manga. Junto com a Tabua do potentado Manuel Nunes Viana, do Arraial de Matias Cardoso (saiba mais), constituíam os primeiros núcleos habitacionais dos colonizadores com população sedentária.

Em 1707, o português Atanásio de Cerqueira Brandão, casado com Catarina de Siqueira e Mendonça, irmã da esposa de Matias Cardoso de Almeida, recebeu uma sesmaria em Brejo Japoré (São Caetano do Japoré), então pertencente à freguesia de Rio Grande do Sul, Capitania de Pernambuco. Rapidamente a localidade se desenvolveu, tornando-se um dos principais núcleos habitacionais desta vasta região nas primeiras décadas do século XVIII.

A importância do lugar se revelou também ao ter se tornado sede da primeira matriz da Comarca Eclesiástica da Manga, que tinha ainda Olinda (sede), Ceará e Alagoas. Por determinação de D. Manuel Álvares da Costa, o 5º bispo da Diocese de Olinda, foi criada a Freguesia da Manga em São Caetano do Japoré, tendo orago, ou seja, o santo padroeiro, Santo Antônio.

O primeiro vigário foi Manuel Rodrigues Neto, nomeado, conforme alvará de 8 e abril de 1728, pelo rei de Portugal, D. João V. O segundo vigário foi o português, Antônio Mendes Santiago, que mais tarde se envolveria com a Sedição do São Francisco ocorrida em 1736.

Como as freguesias (paróquias) eram móveis, o padre Santiago, depois de um certo tempo no São Caetano do Japoré, transferiu a sua sede para Brejo do Salgado (Januária); pouco depois fez outra mudança, desta feita para São Romão; e, por fim, se fixou em Paracatu.


* Em breve você conhecerá em detalhes esta e outras incríveis histórias do Sertão dos currais do rio São Francisco (Norte de Minas) no livro TERRA DE CONTADO do Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

** Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas; Historiador;

Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Terra de Contato (no prelo).

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domingo, 4 de março de 2018

ARRAIAL DO MEIO: o arraial do bandeirante Matias Cardoso


(Prof. Mestre Paulo Robério Ferreira Silva*) O extremo Norte de Minas, região do Médio rio São Francisco próximo aos rios Verde e Carinhanha, foi palco na penúltima década do século XVII, ou mais especificamente entre 1684 e 1688 de intenso embate entre as tropas do bandeirante Matias Cardoso e os nativos anaió, senhores do rio São Francisco. Ao fim do da peleja surgiu a primeira povoação colonial sedentário no território que mais tarde seria Minas Gerais.

** Fragmento de um mapa do período que mostra o Arraial de Matias Cardoso.

Embora haja controvérsias entre historiadores quanto à localização do Arraial de Matias Cardoso (não é o de Morrinhos, atual cidade de Matias Cardoso), investigações recentes realizadas para o livro Terra de Contato nos ajudaram a “decifrar”, conforme documentação histórica referente e vestígios a localização desta povoação que, além de ser a mais antiga com população fixa, também foi uma das mais importantes do interior do Brasil no período colonial.

Matias Cardoso, ao ser contratado por Antônio Guedes de Brito em 1684 para a dita guerra contra os anaió, instalou o primeiro arraial, de cunho militar, na barra do rio Verde. Dado, possivelmente, as enchentes, transferiu o arraial para uma localidade um pouco acima. Neste lugar ergueu uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Bom Sucesso e em 1689 mais de 100 famílias paulistas se fixaram no Arraial de Matias Cardoso no Sertão do rio Francisco. Esta, portanto, foi a primeira ocupação colonial definitiva no território que a partir de 1720 seria a Capitania de Minas Gerais.

A instalação do arraial de Morrinhos só teria ocorrido anos depois por iniciativa de seu filho, Januário Cardoso de Almeida. Entre os moradores da região os três arraiais foram nomeados como: Arraial de Baixo (na foz do rio Verde); Arraial do Meio (um pouco abaixo do atual porto de Matias Cardoso); e Arraial de Cima (Morrinhos).

Na manhã deste domingo, 4 de março de 2018, ou seja, cerca de 330 anos depois, localizamos no Arraial do Meio (Arraial do bandeirante Matias Cardoso), uma série de vestígios das construções que ali foram erguidas, uma delas possivelmente a igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso.              

Em entrevista concedida pelos moradores soubemos que nos lugares destas construções antigas é, praticamente, impossível fazer escavações dado as pedras ali encontradas. Na mesma região, exceto nos lugares das construções, não se encontra pedra alguma. No mais, informaram ainda o encontro recorrente de esqueletos em escavações próximas a uma destas construções, o que pode indicar a existência de um cemitério antigo.

Trata-se, ao final de uma descoberta importante, pois além de dirimir as dúvidas que ainda existiam quanto à localização do Arraial do bandeirante Matias Cardoso, destacaria a importância desta região para a história do Brasil no período colonial, pois esta povoação foi uma das mais importantes no período de expansão colonialista rumo ao interior do Brasil.

Em breve você saberá de mais detalhes da história de Matias Cardoso, Januário Cardoso, Manuel Nunes Viana, os nativos anaió e muito mais no livro Terra de Contato (no prelo) do Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

Localização:


P.S.: Agradeço imensamente a contribuição de Seu João, Dona Rosa, Leandro, Janaína, Dona Petronília, Dona Durvalina e particularmente a Hélia Silva, pelo apoio e incondicional incentivo.



* Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas; Historiador;
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Terra de Contato (no prelo).

domingo, 28 de janeiro de 2018

280 ANOS DE FALECIMENTO DE MANUEL NUNES VIANA

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) Seria uma data a ser comemorada? Hoje, 28 de janeiro de 2018, fazem 280 anos do falecimento de Manuel Nunes Viana, o canguçu do Brasil, um dos homens que, segundo o historiador Charles Boxer, seria um dos construtores do Brasil no século XVIII. Entre tantos aspectos (e curiosidades) que envolvem a sua história e que você poderá conhecer em mais detalhes em breve no livro Terra de Contato (no prelo) do Prof. Mestre Paulo Robério Ferreira Silva, está o fato de Nunes Viana ter se instalado aos 22 anos em uma fortaleza construída a seu mando em 1690 as margens da lagoa dos Cinquenta, na Tabua, próximo a Manga Velha, território do atual município de Manga.

O Castelo da Tabua de Manuel Nunes Viana, também chamado de Castelo do Calindé (Calindó) foi uma obra suntuosa para o seu tempo. Suas ruínas ainda foram avistadas em meados dos século XX por moradores da região. Antes disso, entre 1909 e 1911, o Professor, escritor e pesquisador januarense Manoel Ambrósio visitou as suas ruínas. Em 1939, o historiador mineiro, Salomão de Vasconcellos, em visita a Manga entrevista um dos moradores que revela, entre outras coisas, como se manifestava o poder de Manuel Nunes Viana: “Ouvia sempre dizê que era um home danado aqui pr’o sertão. Todo mundo tinha terrô delle. Andava sempre com um magóte de gente junto co’elle, e tudo armado. Quando corria que ele é vinha, todo mundo tremia de medo”. (publicado no jornal Folha de Minas em 26 de março, um domingo, de 1939).

Entre os moradores da região da Tabua, sobretudo os mais velhos, ainda é comum a narrativa de “causos” sobre Manuel Nunes Viana. Seu Coelho (já falecido), morador do Brejo São Caetano que, na época de Viana se chamava São Caetano do Japoré, em entrevista em março de 2007 informa ter conhecido as ruínas do Castelo de Manuel Nunes Viana. Segundo ele havia uma torre e dela se avistava a “sombra do rio São Francisco”.

Entre tantos outros “feitos”, Manuel Nunes Viana, nascido em 1 de janeiro de 1668 em Viana do Minho, Portugal, e chegado ao Brasil ainda jovem, foi o grande líder dos “emboabas” na famosa Guerra dos Emboabas realizada entre baianos, pernambucanos e reinóis (oriundos de Portugal) e os paulistas na região das minas entre 1708 e 1709. Com a vitória dos emboabas, ou seja, daqueles que tinha os pés cobertos como galinha (utilizavam botas), contra os paulistas (estes foram expulsos da região das minas), Manuel Nunes Viana é aclamado pelo povo como governador e por cerca de um ano e meio exerce seu poder, a partir de Caeté, sobre a região das minas de ouro. Foi, desse modo, Viana o primeiro governador na América escolhido diretamente pelo povo.

Com o fim do seu governo, Manuel Nunes Viana retorna para o seu Castelo na Tabua e daí “governará” os Sertões do Piauí à região das minas como você saberá mais detalhes em breve no livro Terra de Contato.




* Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas; Historiador;
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Terra de Contato (no prelo).


domingo, 17 de dezembro de 2017

SENSO COMUM E FILOSOFIA: Qual você prefere? (Desvendando a Sociedade)

Reflita sobre isto:

“O senso comum tem sua própria necessidade; ele defende seu direito usando a única arma de que dispõe. Esta é o apelo à ‘evidência’ de suas pretensões e críticas. A filosofia, por sua vez, jamais pode refutar o senso comum, porque este não te ouvidos para sua linguagem. Pelo contrário, ela nem deve ter a intenção de refutá-lo porque o senso comum não tem olhos para aquilo a filosofia propõe para ser visto como essencial” (Martin Heidegger*).   

Logo,

Para quem se educa pela filosofia, ou seja: pela reflexão crítica da realidade, sair do meramente aparente é uma necessidade. Aquilo que se percebe facilmente, via de regra, não demonstra o que de fato é. Só a crítica filosófica possibilita desvendar a essência dos fenômenos.

Ao contrário, para aqueles que desprezam a filosofia, por vontade ou por impossibilidade, e isto significa a maioria expressiva da sociedade, o pensamento crítico é tido como um esforço desnecessário. Deste modo, a compreensão da realidade se dada pela repetição da informação. No mundo atual, a televisão (e também a internet) cumprem bem este papel.

Resultado,

Para um país que precisa de transformações urgentes e radicais, dado a falência de suas instituições, quando é evidente a necessidade da mobilização de seus cidadãos para tal fim, indica-se haver uma carência enorme de “pensamento crítico”, filosófico, que seja capaz de mobilizar esta sociedade na luta por interesses comuns. Qual seja: um país para todos indistintamente.

Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva  


* Martin Heidegger (1889-1976) foi um filósofo alemão da corrente existencialista, um dos maiores filósofos do século XX. Foi professor e escritor, exercendo grande influência em intelectuais como Jean-Paul Sartre.



sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

TABUANOS E JAPOREANOS: as origens coloniais de Manga

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva) Em sua tese de doutorado, Mineiros e Baianeiros, o antropólogo da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes), João Batista de Almeida Costa chamou a atenção para a constituição no Norte de Minas de uma espécie de síntese da identidade brasileira. Aqui teriam se encontrado as diferentes matrizes que no período colonial deram origem a sociedade brasileira. Sobretudo baianos, pernambucanos, paulistas e reinóis (portugueses) se misturaram com diversos e diferentes grupos humanos nativos, bem como com escravizados de origem africana, resultando em sociedades que ainda hoje instigam aqueles que buscam apreender e compreender as suas diferentes e intrigantes características.  

A presença do colonizador luso-brasileiro no território que viria a ser o município de Manga e no seu entorno foi registrada pela primeira vem em 1555 com a presença da expedição de Francisco Bruza de Espinoza, espanhol que, acompanhado do padre João de Aspicuelta Navarro e outros onze reinos teriam sido os primeiros a alcançarem o Rio Opara (São Francisco) em seu curso médio. Não há registro, conforme carta de Aspicuelta, que tenham fundado povoações.

Em fins do século XVII, Matias Cardoso de Almeida foi contratado pelo potentado Antônio Guedes de Brito, senhor da Casa da Ponte, para fazer guerra aos belicosos Ua-Nay (Anaió). Depois de um longo e sangrento período de lutas, concluído em 1688, Matias Cardoso de Almeida, vitorioso, retorna a São Paulo e de lá volta em 1690, dando início ao primeiro processo de ocupação colonial no vasto território que décadas depois seria denominado Minas Gerais. Até aquele período todo o lado direito do Rio São Francisco desde o Rio das Velhas era território da Bahia. O lado esquerdo, por seu turno, pertencia a Pernambuco.

Pouco tempo depois, antes mesmo de findar o século XVII, chega a esta região o lendário Manuel Nunes Viana. Veio na condição de procurador da sesmaria dos Guedes de Brito. Estrategicamente construiu uma fortaleza, o Castelo do Calindé (Calindó), nas margens da Lagoa dos Cinquenta, próximo a Manga Velha. Dali espalhou o seu domínio, influenciando decisivamente os rumos econômicos e políticos também da região das minas de ouro. Foi líder dos emboabas na guerra contra os paulistas em 1708, tornando-se, em consequência, o primeiro governador na América aclamado pelo povo.

O Castelo do Calindé foi a sede, durante várias décadas da Tabua, uma gigantesca área que mais tarde viria a ser denominada de Fazenda Geral da Tabua. Neste território, em que seus limites eram definidos conforme os usos e as apropriações de seus moradores, desenvolveu-se uma das primeiras sociedades no que viria a ser o município de Manga, instituído em 19 de outubro de 1924, depois do desmembramento do município de Januária.

A sociedade tabuana, centrada inicialmente na figura de Viana, um dos homens mais poderosos do Brasil no período colonial, como observou o padre André João Antonil em sua obra Cultura e Opulência do Brasil por suas Drogas e Minas publicada em 1711, se desenvolveu primordialmente da mescla entre indivíduos e as famílias nativas, de origem africana e de brasileiros que já espalhavam pelo território fruto do vigoroso processo de miscigenação em voga.

No mesmo período, nas proximidades da Tabua, surgiu outro importante núcleo de ocupação colonial. Trata-se de São Caetano do Japoré (atual Brejo São Caetano). A sesmaria foi doada, por petição, ao capitão-mor Atanásio de Serqueira Brandão em 1707. Um ano antes, quando o mesmo solicitou a doação foi registrado em seu pedido a existência de um engenho de cana de açúcar. Era da intenção do mesmo, conforme documento da época, continuar as benfeitorias no lugar, bem com construir uma hospedagem para viajantes. Foi também neste lugar que o bispado de Pernambuco instituiu a freguesia de São Caetano do Japoré, uma das mais antigas da Diocese de Olinda.

A sociedade japoreana, limítrofe a tabuana, se desenvolveu ao longo dos séculos seguintes como uma das mais importantes do vale do Médio Rio São Francisco. Sua composição social assemelhava-se aquele que se desenvolveu na Tabua. No entanto, a sua condição de sede da freguesia religiosa dava-lhe maior visibilidade, bem como teria sido motivo que impulsionou o seu desenvolvimento econômico e político. A condição de principal núcleo urbano destas plagas só seria perdida na segunda metade do século XX, quando a Vila de Manga, anteriormente Manga do Amador, se tornaria a sede do recém criado município de Manga.

Para além destes núcleos coloniais, neste vasto território também existiam importantes comunidades nativas, a exemplo do Puri e outras. O amálgama de nativos, indivíduos de origem africana e europeia e brasileiros resultou numa sociedade complexa em seus costumes e modos de vida e que se revela, ainda em nossos dias, enigmática. O esforço em identificar quem foram ao longo dos últimos séculos estes tabuanos e japoreanos e como estas identidades se transformaram no contato com os de “fora” e/ou mesmo (re)inventando-se internamente em muito contribuirá para revelar quem são efetivamente os manguenses, ou mais especificamente o que é ser manguense.    

# A reprodução deste texto só é permite, sem encargos, mediante a citação explícita do autor: Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

* Mestre em Ciências Sociais pela PUC Minas; Historiador; Especialista em História e Cultura Afrobrasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Educação para a diversidade (no prelo). Professor das Escolas Estaduais: Ministro Petrônio Portela e Presidente Olegário Maciel.


Leia o livro: Manga – encontro com a modernidade.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

MANGA TAMBÉM FOI INSPIRAÇÃO PARA CARLOS LACERDA

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva) Um dos políticos mais influentes e polêmicos do século XX no Brasil, Carlos Lacerda, ferrenho opositor de Getúlio Vargas, teve Manga como inspiração em relação ao ideal de desenvolvimento que o político defendia para o Brasil após a década de 1930. Em visita a Manga em 1937, num projeto que objetivava identificar as potencialidades do Vale do Rio São Francisco, Lacerda teria se surpreendido com os resultados alcançados pela Cia. Manga (usina de algodão) em apenas um ano de funcionamento.

Em relato feito no livro O Rio São Francisco: desafios e promessas, Lacerda destaca como os manguenses conseguiram aproveitar de forma eficiente naquele momento às potencialidades do lugar. Primeiro destaca a construção da Cia. Manga e Industrial S/A (CMIE) com recursos do próprio município por meio de investimentos feitos por 65 associados liderados pelos pernambucanos Domiciano Pastor Filho (Coronel Bembém) e João Alves Pereira. No primeiro ano de funcionamento (1936) o faturamento foi de cerca de 600 contos, o dobro do investimento feito que teria se aproximado de 300 contos.

Além de ser a mais importante empregadora do município e a principal impulsionadora das atividades econômicas, a CMIE também se destacou pelo fornecimento de energia. “O grande orgulho de Manga é a luz, realmente superior à de todas as cidades ribeirinhas, produzida por uma bomba de aspirar água do S. Francisco (7 metros de sucção por 35 de elevação), alimentando a caldeira com a capacidade de 8.400 litros por hora.” (recorte do livro Manga: encontro com a modernidade).

Para Lacerda, o exemplo produzido em Manga na década de 1930 poderia ser tomado como referência para os necessários processos de industrialização que precisariam ser implementados no país, que buscava, naquele momento, alternativas para a crise que assolava o mundo depois da queda da bolsa de Nova York em 1929.

A solução dada por Manga, por meio, sobretudo, das iniciativas e engenhosidades dos coronéis pernambucanos que dominaram o lugar entre as décadas de 1920 e 1950, respondia a exploração das riquezas disponíveis na região: produção de algodão em grande escala, vantagem geográfica em relação ao Rio São Francisco, principal via de comunicação no interior deste pedaço do país, além do uso de recursos financeiros e mão de obra da própria região.

Saiba mais no livro: Manga: encontro com a modernidade do Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

Clique aqui e veja o que já foi publicado sobre a história de Manga e da região.

MATIAS CARDOSO DE ALMEIDA: o grande conquistador

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva) A segunda metade do século XVII no Brasil foi marcada pela expansão da fronteira colonial rumo aos sertões de dentro e de fora, territórios em que hoje estão os Estados do Nordeste e Minas Gerais. Um dos principais conquistadores na chamada Guerra dos Bárbaros (veja detalhes abaixo) foi o paulista Matias Cardoso de Almeida. Líder em várias empresas contra os nativos a sua história ainda é pouco conhecida.

Antes da chegada dos destemidos paulistas – como ficaram conhecidos os bandeirantes na guerra contra inúmeros grupos nativos no vasto território do interior da colônia brasileira – ao que hoje é a região Norte de Minas, Matias Cardoso de Almeida foi o principal acompanhante de Fernão Dias e depois Dom Rodrigo Castelo Branco nas bandeiras das esmeraldas. Estas tinham como objetivo localizar o precioso mineral em terras que mais tarde seriam o Estado de Minas Gerais.

A chegada de Matias Cardoso de Almeida a estas plagas, entre os anos de 1684 e 1688, teria sido motivada pela necessidade de debelar o povo Ua Nay (Anaió) que senhoreavam às margens direita do Rio Pará (São Francisco) no território que pertence ao município de Matias Cardoso.

O convite para a guerra aos Ua Nay foi feito pelo potentado baiano e senhor da Casa da Ponte, Antônio Guedes de Brito, e fazia parte de uma iniciativa dos Guedes de Brito em ocupar aquela que seria uma das maiores sesmarias do Brasil.

Depois desta “conquista”, como tem sido considerada por parte expressiva da historiografia brasileira, Matias Cardoso de Almeida foi convidado para fazer a Guerra contra os povos nativos que habitavam o interior do Rio Grande (do Norte), Paraíba e Ceará.

Depois de cerca de 5 anos em combate, Matias Cardoso de Almeida, que teria perdido um de seus filhos, retorna para o Sertão do São Francisco e continua os processos de ocupação colonial. Dedica-se a pecuária e outras atividades econômicas e torna-se um dos homens mais importantes das primeiras décadas do território que viria a ser Minas Gerais.

P.S.: A Guerra dos Bárbaros foi uma série de conflitos, realizado no interior do Nordeste, entre o colonizador e os povos nativos. Teria durado entre meados do século XVII e o início do século XVIII.

ARRAIAL DE MATIAS CARDOSO: o "berço" de Minas Gerais

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva) O depoimento do padre Pestana, feito a cerca de 300 anos contribui para elucidar a história e revelar o início da ocupação colonial no que viria a ser Minas Gerais.

EXCLUSIVO. O Norte de Minas, mesmo sendo vitimado pelos “esquecimentos” históricos que construíram e constroem Minas Gerais – tema que ganha espaço privilegiado em trabalhos acadêmicos recentes –, ocuparia um lugar de destaque na história deste Estado e do país. Teria sido por estas plagas que o processo de colonização do que veio a ser o Estado de Minas Gerais começou.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

MANGA E ADJACÊNCIAS: UM TERRITÓRIO DE HISTÓRIA

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) Haveria certos – ou, seguramente, muitos – fascínios pela intrigada história que se desenvolveu ao longo dos últimos séculos no território que hoje é ocupado pelo município de Manga e adjacências. Basta um breve olhar sobre este passado vigoroso e teimoso para ser atraído por uma história que pulula em nossos imaginários em busca de respostas para questões curiosas, a exemplo de: como foi possível que em meados do século XX Manga tivesse ganhado tamanha visibilidade política, inclusive com a visita, por duas vezes, do governador do Estado, Benedito Valadares, acompanhado em uma delas por figuras ilustres do cenário político brasileiro, como: Carlos Luz, Otacílio Negrão de Lima e Juscelino Kubitschek (futuro presidente do Brasil), e nas décadas seguintes tenha declinado tanto a sua expressão política e força econômica?

E, se se pensa ter ficado apenas no século XX as questões ainda não resolvidas da história de Manga e desta região, considerada, como atesta o antropólogo da Unimontes, João Batista de Almeida Costa (Joba), como síntese da sociedade brasileira, basta retroagir ao tempos histórico e ver-se-á desafios incríveis para aqueles que revolveram mergulhar em nosso passado para mais bem entender quem efetivamente nós somos.

A ocupação humana nesta região, por exemplo, tem vestígios de 9.000 A.P. (antes do presente). Foram identificadas em estudos realizados por André Prous, arqueólogo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e outros pesquisadores, a presença do homem no complexo de cavernas do Peruaçu e no complexo de cavernas de Montalvânia, inclusive uma delas localizada nas proximidades de Nhandutiba. Os registros indicam que não se tratava de uma presença qualquer, mas estava diretamente associada à utilização de tecnologias que permitiam e facilitavam o convício do homem com o próprio meio. Exemplo disso se viu no armazenamento de sementes envolto em cinza, como praticado pelo povo Una, sistema que permitia a sua conservação e a proteção contra roedores. Curiosidade? Em dias atuais ainda é comum o uso de tal tecnologia, conforme relatado por moradores em entrevistas informais.

Em fins do século XVII, a guerra neste território, realizada por Matias Cardoso de Almeida e outros paulistas contra os poderosos guerreiros Ua-Nai (Anaiós), conflito iniciado entre 1684/95 e concluído apenas em 1688, possibilitou, a partir de 1690, a realização da primeira ocupação colonial no território que viria a ser Minas Gerais, com a fundação do Arraial de Matias Cardoso (Arraial do Meio) naquele ano e a instituição da freguesia de Nossa Senhora do Bonsucesso, a primeira do que viria a ser Minas Gerais, em 1694. Naquele momento, todo o lado direito do Rio São Francisco era jurisdição da capitania da Bahia, e o lado esquerdo – onde está localizado o atual município de Manga – pertencia à capitania de Pernambuco.

No mesmo período, um dos homens mais poderosos do Brasil em fins do século XVII e primeiras décadas do século XVIII, Manuel Nunes Viana, ergue uma fortaleza as margens da lagoa dos cinquenta, próximo a Manga Velha. O Castelo do Calindé (Calindó) se tornou uma das principais referências no vale do Rio São Francisco durante o período colonial. De lá, Manuel Nunes Viana controlava com veemência o vasto território da Tabua, bem como partiu para derrotar os paulistas da Guerra dos Emboabas e assumir o governo da Capitania de Minas Gerais, na primeira década do século XVIII.

Também foi neste século que foi criada a Freguesia de São Caetano do Japuré (atualmente: Brejo São Caetano). Sob administração do Bispado de Olinda, São Caetano do Japuré, prosperou durante os séculos XVIII, XIX e início do XX como uma das mais importantes comunidades deste vasto território. Teria perdido o status com a ascensão de Manga, localidade que surgiu às margens do Rio São Francisco a partir da fazenda de Amador Machado fundada na década de 1830. Manga (Nova, em alusão e contraponto a Manga Velha), rapidamente se desenvolveu, vindo a emancipar-se em 1924, dado as articulações políticas dos coronéis Domiciano Pastor Filho (Bembém) e João Alves Pereira.

Em 1936, com a criação da Cia. Manga Industrial e Exportadora S.A., empresa que construiu o majestoso prédio na Rua Olegário Maciel, Manga se tornaria um exemplo de como era possível desenvolver as atividades econômicas em localidades do interior do país aproveitando o seu potencial produtivo, como mostrou Carlos Lacerda em livro, depois de presenciar em 1937 o sucesso daquele empreendimento liderado pelos coronéis Bembém e João Pereira.

Em 1958, outro momento importante da história local provocado pela derrota do referidos coronéis em eleição municipal para Antônio Montalvão, outro ícone desta incrível história. A derrota amarga pôs fim ao ciclo de domínio político dos coronéis e deu início a um período de “esquecimento” da história destes dois líderes pernambucanos que dominaram este território na primeira metade do século XX. Esta história, também ainda está para ser contada.

Sem a pretensão de ser exaustivo, condição deveras impossível neste pequeno texto, viu-se que exige-se dos historiadores um esforço hercúleo para se construir novas narrativas desta história emblemática. Estamos apenas começando – e um começo que já dura décadas – mas, ao final, espera-se que esta bela história possa contribuir para (re)significar as nossas identidades, no sentido criar novos valores para um povo que aprendeu a conviver na diversidade e a construir uma sociedade secular, considerando as ocupações coloniais, e milenar, considerando o esforço do homem em dominar a natureza.

# A reprodução deste texto só é permite, sem encargos, mediante a citação explícita do autor: Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

# Imagem: Porto de Manga (1924).


* Mestre em Ciências Sociais pela PUC Minas; Historiador; Especialista em História e Cultura Afrobrasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Educação para a diversidade (no prelo). Professor das Escolas Estaduais: Ministro Petrônio Portela e Presidente Olegário Maciel.


Para saber mais leia o livro: Manga: encontro com a modernidade do Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

RELAÇÕES RACIAIS É TEMA DE PALESTRA DO PROF. MESTRE PAULO ROBÉRIO F. SILVA

Embora a sociedade brasileira resulte do caldeamento de diversos e diferentes grupos étnicos, tanto de origem autóctone, como europeia e africana, resultando com isso numa mistura impar na história da humanidade, o tema relações raciais ainda é de difícil trânsito nas instituições que dão forma a este país, até mesmo nas Escolas. Nesta quinta-feira, 23 de novembro de 2017, a E.E. Presidente Olegário Maciel promoveu, como evento da Semana de Educação para a Vida, uma importante palestra com o Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva. Em pauta, as Relações Raciais e as artimanhas da Raça e do Racismo.

Mediado pela supervisora Hélia Silva, a abertura do evento foi feito pela diretora da instituição, Senhorinha Andrade, que versou sobre a importância das relações sociais a partir de previsibilidade na legislação educacional vigente, considerando a sua significância em face da realidade social brasileira e manguense, em particular, marcada pela diversidade étnica.

O evento, que teve a presença de educandos do turno vespertino, tanto do ensino fundamental como médio, contou também com a presença dos alunos pesquisadores do projeto de Iniciação Científica: Africanidades desenvolvido pela E.E. Ministro Petrônio Portela. Foi uma oportunidade para se apresentar o referido projeto de iniciação científica promovido pela primeira vez em Minas Gerais com educandos do ensino médio e que tem como objetivo investigar as identidades de duas comunidades quilombolas e relacioná-las as dinâmicas desenvolvidas pela Escola, bem como foi apresentado também o projeto "Indicadores da Qualidade da Educação: Relações raciais", a ser desenvolvido em 2018. Nos mais, foi também um significativo momento de intercâmbio entre as duas maiores Escolas estaduais do município.

Em sua fala, o Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva apresentou o panorama histórico de construção das ideias de raça e racismo ao longo dos últimos cinco séculos. Mesmo que ainda de forma não-científica as ideias relacionadas à raça e ao racismo no Brasil são implantadas com a instituição dos processos colonialistas desenvolvidos a partir da primeira metade do século XVI. A hierarquia entre o colonizador (dominador) de origem europeia e as populações nativas e em seguida as de origem africana e mestiça (dominados), como já vai se caracterizando no primeiro século de ocupação colonial, resulta na instituição de um imaginário que separa os brancos europeus, numa pseudo-condição de superiores hierarquicamente e o restante da população, subalternizada e inferiorizada em todos os seus aspectos.

No século XVIII, a ciência, principalmente depois da classificação das espécies animais feita pelo naturalista Carl Linné em 1735, com a publicação do livro Systema Naturae, ratifica a hierarquização das raças e estabelece a verdade científica como justificativa para separar os seres humanos em civilizados ou não, em suas diferentes gradações. Já no século XIX, tanto o ideal de branqueamento da sociedade brasileira, doutrina instituída pela elite nacional a partir da independência do Brasil em 1822, como o desenvolvimento de teorias científicas, a exemplo da antropometria e da osteometria, ramos do conhecimento utilizados para medir as proporções do corpo e dos ossos, visando identificar, sobretudo, a propensão ao crime, contribuíram para acentuar ainda mais a distinção entre brancos e não-brancos, fortalecendo com isso o estado violento de desigualdade social.

Mesmo com a tentativa de Gilberto Freyre, antropólogo pernambucano, de “amenizar” os efeitos desta hierarquia social com a sua defesa de que no Brasil se processou e processa uma “democracia racial”, tese apresentada no livro Casa Grande & Senzala, publicado em 1933, as distâncias entre brancos e não-brancos não arrefeceram. Ao contrário, têm se tornado cada vez mais expressivas e violentas.

Como resultado, o país chega ao século XXI divido entre aqueles que percebem, em linhas gerais, que os problemas de raça e racismo não se referem necessariamente à “cor da pele”, mas a desigualdade social. Muitos se apóiam, inclusive, em uma ideia esdrúxula de que no Brasil não há racismo, como defendem Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, no livro Não Somos Racistas e o geógrafo da USP, Demétrio Magnoli no livro Uma Gota de Sangue. Por outro lado, há aqueles que entendem que as questões de raça e de racismo têm construção histórica e que tem resultado na produção de uma sociedade extremamente desigual, em que milhões de brasileiros são violentados em seus direitos para beneficiar uma pequena parcela da sociedade que se arvora elite.

O tema, como se pode perceber nesta breve reflexão considerando os elementos históricos, é carregado de nuances caracterizando, com isso, a sua complexidade que, seguramente, vai para além dos aspectos científicos, perpassando elementos morais e de relação de poder, entre tantos outros. Nisto se assenta a manifestação do racismo como elemento constituidor da sociedade brasileira, construída, inclusive em nossos dias, em bases escravistas.

Desse modo, seria profícuo perceber alguns aspectos da natureza do racismo:

a) Seu lugar privilegiado é o imaginário.
b) Se justifica na exata proporção de produção de privilégios para o racista e de exclusão para as vítimas.
c) Se materializa na apropriação dos recursos escassos, condição que acentua a desigualdade social.
d) Se perpetua num moralismo (ou pseudo-moralismo) arcaico, conservador e que não aceita as transformações sociais em busca de uma sociedade para todos, indistintamente.

No mais, uma longa jornada ainda nos separa do ideal africano do ubuntu: só sou porque somos nós. E esta longa jornada, feita de sonhos, suor, sangue e muita garra começaria em cada movimento que nos conduza, mesmo que ainda timidamente, ao sonho de liberdade para todos, indistintamente.


* Mestre em Ciências Sociais pela PUC Minas; Historiador; Especialista em História e Cultura Afrobrasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Educação para a diversidade (no prelo). Professor das Escolas Estaduais: Ministro Petrônio Portela e Presidente Olegário Maciel.

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