segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Afinal, por que estudar história?


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva) Como Ciência a História é o campo do saber que lida com a existência do homem e de tudo aquilo que a ele está relacionado. Como saber popular, a história nos remete ao passado, no sentido que a partir do presente procuramos dialogar com aquilo que já aconteceu e que nos são revelados por meio dos vestígios. Como saber escolar, a História permite ao homem não apenas visitar o passado, mas, sobretudo, questionar a própria existência em busca de compreender o mundo em suas diferentes facetas.

Então, afinal, por que estudar história? O Prof. Dr. Caio Cesar Boschi no livro Por que estudar história? contribui para que possamos responder a esta pergunta a partir de um conjunto de argumentos que nos leva a refletir sobre como este conhecimento científico (transformado em escolar) tem sido fundamental para a existência da própria humanidade. Sem a pretensão de aprofundar as questões propostas por Boschi vamos, neste breve texto, apontar alguns aspectos que indicam a essencialidade da formação de uma consciência histórica consistente.

Boschi nos instiga, como primeira abordagem, a compreender o mundo a partir dos questionamentos. Ou seja, o mundo não nos apareceria como algo natural ou como revelação, mas os seus diferentes sentidos, dados pelos homens conforme os seus tempos e espaços, emergiriam do diálogo que estabelecemos a partir do mundo em que vivemos com o próprio passado e, inevitavelmente, com o futuro.

“É preciso desconfiar”. Quando fazemos isto necessariamente vamos em busca de vestígios, ou seja, algo que nos ajude a construir os argumentos que precisamos para responder às perguntas que foram feitas quando desconfiamos.

Se assim fizermos, começamos a descobrir porque as coisas são assim e não de outra forma. Neste momento começamos a fazer e a viver a história. Tiramos da realidade a sua condição de naturalidade ou de revelação. Colocamos nesta realidade vivida, observada, refletida e significada a historicidade. Na verdade, trazemos para o presente aquilo que estava “guardado no tempo”. E deste encontro entre o presente e o passado utilizamos como convidado ilustre o futuro.  

A história, portanto, é um exercício permanente de relação entre as nossas ações, pois vivemos, transformamos e somos transformados pelo mundo, e os sentidos que damos a este mundo. Na práxis, ou seja, na relação entre ação e teoria, produzimos a consciência da realidade. Por isso, a História é o saber que lida com a existência do mundo.

Seria, portanto, desvelando o mundo que nos deparamos com as diferenças culturais. Isto é chamado pelas Ciências Sociais e Humanas de multiculturalismo. Somos bilhões de humanos na terra. Milhões de forma de organização social, política, familiar, religiosa, econômica etc. nos caracterizam. Somos o homo sapiens, mas, para além de pertencermos à mesma espécie animal, somos completamente distintos nos modos de vida. Ao compreendermos este multiculturalismo aprendemos um dos elementos essenciais do que é sermos cidadãos. Isto quer dizer: membros de uma nação que tem como uma de suas principais características a multiplicidade de manifestações culturais.

Como sujeitos da história, pois agimos e refletimos sobre as diferentes formas em que nos organizamos coletivamente, seria preciso ainda estar atento para mantermos um permanente estado de compreensão da realidade. Afinal, o tempo não pára. Tudo está em constante processo de mudança. A história, como o tempo e o espaço, vibra a cada instante; se inventa e se reinventa carregando em si mesma permanências e provocando rupturas. Assim, a História está viva.

A História, portanto, é aquilo que nós somos. Por meio do ontem, do amanhã e do presente podemos dar sentido ao mundo, compreender os fenômenos da realidade, desvelar o imponderável. Por meio dela é possível ainda, entre tantas outras coisas, compreender o nosso próprio lugar em relação ao mundo. Tomar ciência do sujeito sócio-histórico que nós somos.

E, embora a História possa ser manipulada ela é inevitável à nossa existência. Por isso Boschi nos alerta: “O que lembramos e o que esquecemos pode servir à libertação humana, mas também pode contribuir para a servidão, para o domínio de determinados grupos”.


* Historiador; especialista em História e Cultura Afro-brasileira; Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas. Autor do livro: Manga: encontro com a modernidade (2010) e de Terra de Contato (no prelo). 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

MANGA E SUAS ORIGENS


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva) Em breve o município de Manga se tornará centenário. A história da ocupação humana deste território, no entanto, tem cerca de 12.000 anos. Neste pedaço do que é hoje o Norte de Minas, ou mais especificamente entre os Rios São Francisco (outrora o caudaloso Rio Opará) e Carinhanha e o Vale do Peruaçu e o complexo de cavernas localizados nos atuais municípios de Montalvânia, Juvenília e Manga (e adjacências), o homem desenvolveu importantes civilizações, a última delas foi a Una. Estes brasileiros ancestrais inventaram a cerâmica, desenvolveram a agricultura e outras técnicas para lidar com o mundo ao qual estavam inseridos.

No final do século XVII o colonizador luso-brasileiro chegou a estas plagas. O paulista Matias Cardoso de Almeida e o baiano Marcelino Coelho e suas tropas fizeram guerra contra os poderosos anaió (aqueles pertencentes a civilização Una). Depois vieram outros potentados, como os portugueses: Manuel Nunes Viana (primeiro governador da Capitania de Minas Gerais e um dos fundadores do Brasil, como assim se reportou o historiador e brasilianista britânico Charles Boxer), Manuel Pires Maciel e Atanásio de Cerqueira Brandão (fundador da sesmaria de São Caetano do Japoré, atual Brejo São Caetano) e os brasileiros: Januário Cardoso, Antônio Gonçalves Figueira, Domingos do Prado de Oliveria, Maria da Cruz, Salvador Cardoso e tantos outros. Estes foram os fundadores da “civilização dos currais” que dominou o curso médio do Rio São Francisco, onde hoje estão os municípios de Manga, Matias Cardoso, Itacarambi, Januária, São Francisco e outros.

No lado direito do Rio São Francisco o primeiro povoamento foi realizado no Arraial de Matias Cardoso (atualmente comunidade Arraial do Meio no município de Matias Cardoso); no lado esquerdo, a primeira comunidade foi a Tabua erguida por Manuel Nunes Viana (próximo a comunidade de Manga Velha no atual município de Manga).

A cidade de Manga, no entanto, surgiu de uma fazenda instalada por Amador Machado na década de 1830, ou seja, cerca de um século e meio após a chegada dos primeiros colonizadores. Dado a incidência de mangas – pastagens naturais que eram utilizadas para criação, sobretudo, de gado vacum e cavallar – logo o lugar passou a ser chamado de Manga do Amador (homenagem ao seu fundador) bem como a ser contraponto a localidade de Manga já existente. Daí foi inevitável a definição de Manga Velha (para o lugar existe próximo a Tabua de Manuel Nunes Viana) e a Manga Nova (Manga do Amador).

Como a criação do município de Januária ocorrida em 7 de outubro de 1860 Manga do Amador passou a fazer parte do Distrito de São Caetano do Japoré. O significativo desenvolvimento econômico do lugar, sobretudo depois que os coronéis pernambucanos João Alves Pereira e Domiciliano Pastor Filho se estabeleceram no poder, possibilitou a sua emancipação do município de Januária em 19 de outubro de 1924, conforme previsto em Lei Estadual em 7 de setembro de 1923.

Portanto, o nome Manga justifica-se por ter sido esta região ao longo dos últimos três séculos um importante centro pecuário dado a ocorrência de mangas (pastos) naturais em suas incontáveis baixadas. Não sem tempo, a beira dos seus 100 anos de emancipação política e cerca de 200 anos de existência nem um símbolo material caracteriza esta bela história. Possivelmente seja o momento adequado para que se erga em local público de grande visibilidade uma bela estátua que mostre a importância do vaqueiro, do gado bovino e cavalar e das mangas naturais para a existência da cidade de Manga e, oxalá, isto também possa chegar as Escolas e ao imaginário popular que, infelizmente, ainda não se apropriou de sua própria história.

P.S.: O cruzeiro erguido no centro da cidade e conhecido popularmente por Cruzeirinho simboliza o surgimento da fazenda de Amador Machado e da comunidade de Manga do Amador.


* Historiador; especialista em História e Cultura Afro-brasileira; Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas. Autor do livro: Manga: encontro com a modernidade (2010) e de Terra de Contato (no prelo). 


quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

A CIÊNCIA E A ARTE PARA SUPERAR O OBSCURANTISMO


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) Uma breve leitura do mundo europeu – considerando a sua importância, dado que o vasto continente americano foi por eles colonizado durante mais de 3 séculos e a sua forte influência ainda se verifica nos dias atuais – mostraria que ao longo da história daquele povo que ali se desenvolveu teria havido em épocas diferentes esforços significativos para superar as forças opressoras que ali se manifestaram.

Foi com este objetivo, por exemplo, que surgiram os renascentistas, os burgueses e em certa medida os protestantes religiosos para questionar a ordem medieval pautada na submissão do homem à igreja e a nobreza. A partir daí, a mudança do pêndulo em favor do homem fomentaria revoluções que alterariam o próprio curso da humanidade, a exemplo da Industrial, das Republicanas e, sobremaneira, das científicas. Ao se “iluminar” pela razão e pelo conhecimento sistematizado, o homem passou a caminhar em direção ao futuro e os efeitos disto se tornam cada vez mais intensos e densos em todos os cantos do planeta.

Na América tais revoluções tanto têm sido apropriadas como reinventadas, ou seja, ganharam novos sentidos conforme as próprias demandas históricas. De outro modo, o protagonismo da América Latina ainda é tímido. Embora exista o germe da revolução, ele ainda não teria se desenvolvido a contento. O filósofo italiano Domenico de Massi, inspirado em Darcy Ribeiro, questiona, inclusive, a urgência de o Brasil oferecer ao mundo a sua contribuição, que viria da forma como lidamos com a riqueza e a esperança.

Embora sejam evidentes que o homem caminha a passos cada vez mais largos rumo à superação das opressões e a realização de mundo efetivamente para todos, as forças contrárias têm manifestado um alto poder de domínio e de reinvenção. A onda “obscurantista” que varre o planeta e está em evidência no Brasil, exemplifica claramente isto. Para mais bem explicá-la basta ver a dificuldade que se tem no país de realizar a democracia. Em grande medida isto se explica pela própria falta de compreensão do brasileiro médio em compreender o que é realmente a democracia.

De outro modo, se a disseminação de ideias em um passado muito próximo estava, em grande medida, restrita a algumas instituições, como a Escola, a igreja, a mídia, a família, entre outras, atualmente a facilidade de acesso as redes sociais de internet tem polarizado ao extremo a expressão das ideias. Para além do lado positivo, neste “novo território” circulam intensamente tanto os conhecimentos que iluminam a trajetória do homem em busca de um mundo melhor para todos, como aqueles que negam esta possibilidade e promovem a concentração cada vez maior do poder em minorias em detrimento dos interesses dos grandes contingentes populacionais. O obscurantismo se reinventa com grande evidência nos dias atuais, exatamente neste segundo campo.

Para lidar com tudo isto o sociólogo brasileiro Newton Duarte indica dois caminhos que além de não se excluírem se complementariam. O primeiro é o caminho do pensamento teórico. Este é o da Ciência e da Filosofia. Como o conceito – aquilo que utilizamos para significar os fenômenos e objetos – não é dado de imediato ao sujeito que pensa, só é possível alcançá-lo por meio das abstrações. “Essa elaboração teórica permite ao pensamento chegar à síntese de múltiplas relações e determinações que constitui a totalidade concreta. Trata-se, entretanto, de um processo nunca concluído, pois a realidade está sempre em transformação e o pensamento está sempre dela se aproximando”. (DUARTE, 2016, p. 96).

O outro caminho é pela Arte. Se pela Ciência e Filosofia faz-se necessário afastar-se da aparência dos objetos e fenômenos em busca de leis essenciais que só emergem por meio dos conceitos, a Arte faz o contrário: “[...] mostra esta aparência de outra forma, numa fusão com a essência, num processo que revela ao sujeito a realidade com suas contradições intensificadas, com a acentuação da sua dramaticidade ou da sua comicidade”. (DUARTE, 2016, p. 96).  

Lukács (2010), ao observar que toda Arte autêntica possui em si a dimensão realista, condição que revela a relação orgânica entre Arte e sociedade, deixa claro que a obra de Arte tanto é um reflexo da vida como a expressão crítica da própria existência humana.

Portanto, mais uma vez, surge a oportunidade da Ciência e da Arte continuarem contribuindo com a humanidade para superar as forças opressoras, atualmente evidenciadas no obscurantismo, que inibem o homem de manifestar a sua plena liberdade.


* Historiador; especialista em História e Cultura Afro-brasileira; Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas. Autor do livro: Manga: encontro com a modernidade (2010) e de Terra de Contato (no prelo). 


Referências:

DE MASI, Domenico. O futuro chegou. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014.

DUARTE, Newton. Relações entre conhecimento escolar e liberdade. Cadernos de Pesquisa, v. 46, n. 159, p. 78-102, jan./mar., 2016.

LUKÁCS, György. Marxismo e teoria da literatura. 2a. Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2010.

RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. 2ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

domingo, 9 de dezembro de 2018

O PROTO-NORTEMINEIRO


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) O Norte de Minas é um dos berços da sociedade brasileira. O homem está nesta região desde cerca 12.000 anos antes do presente (AP). Estudos arqueológicos, a exemplo dos realizados por André Prous da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), indicam que os brasileiros ancestrais ocuparam o território entre os vales do Peruaçu, o complexo de cavernas de Montalvânia e o rio São Francisco.

Esta população primitiva, reconhecida pela arqueologia como tradição Una sofreria dois grandes impactos: primeiro com a chegada dos tupiguarani há cerca de 600 anos antes do presente; depois pela presença na região do colonizador luso-brasileiro a partir do final do século XVII.   

Este segundo choque alteraria profundamente a trajetória histórica destes povos ancestrais. O colonizador estabeleceu a partir do Arraial de Matias Cardoso a ocupação colonizadora/sedentária desta região. Surgia à civilização dos currais, a sociedade que deu origem a Minas Gerais.

A partir da penúltima década do século XVII as dinâmicas sócio-culturais desenvolvidas no curso médio do rio São Francisco, ou mais precisamente o trecho entre os rios Verde e Carinhanha ao Norte e o rio das Velhas ao Sul, não resultaria apenas das experiências e expectativas destes “brasileiros” ancestrais, passavam também a serem impregnadas das experiências e expectativas dos colonizadores, das populações subalternizadas transplantadas e, sobremaneira, dos mestiços que surgiam do encontro destas diferentes matrizes étnico-históricas.

São estes mestiços oriundos dos brasileiros ancestrais com as outras matrizes étnico-raciais estabelecidas nesta região entre fins do século XVII e início do XVIII que são os verdadeiros proto-nortemineiros e mineiros. São eles manifestação legítima do que é ser efetivamente brasileiro.


* Historiador; especialista em História e Cultura Afro-brasileira; Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas. Autor do livro: Manga: encontro com a modernidade (2010) e de Terra de Contato (no prelo).  

P.S.: O arraial de Morrinhos (atualmente Matias Cardoso) foi um dos primeiros núcleos povoadores do Sertão dos currais do rio São Francisco. A igreja – a mais antiga de Minas Gerais – foi erguida em sua forma definitiva provavelmente no início do século XVIII.



O REENCONTRO COM A ANCESTRALIDADE NORTEMINEIRA


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) Quem, de fato, são os nortemineiros? As possíveis respostas emergiriam necessariamente de outro questionamento: a partir de quais dimensões seria possível estabelecer tal indagação? Se for considerado o sentido geopolítico, por exemplo, podemos dizer que o nortemineiro se refere a uma identidade recente, ainda não consolidada em sua essência, formada por múltiplas e ainda fragilmente identificadas identidades. Estaria em contraposição, como já manifestada em muitos estudos, a exemplo da tese de doutorado do antropólogo da Unimontes, João Batista de Almeida Costa (2003), à identidade mineira. Se, por outro viés, se remeter aos aspectos históricos, seria necessário considerar, ao menos, dois momentos que seriam efetivamente tratados como substratos desta identidade genérica. O primeiro, a existência do homem neste território desde cerca de 12.000 anos antes do presente (AP) (PROUS, 2007); o segundo, o vigoroso processo de colonização iniciado em fins do século XVII. Nestas plagas teria surgido a primeira civilização colonizadora com população sedentária no que viria a ser o território de Minas Gerais.

Esta ancestralidade e este processo de miscigenação ainda seriam pouco conhecidos tanto da ciência como dos próprios sujeitos históricos que aqui se desenvolveram nos últimos séculos e que a partir destes dois momentos fundantes receberiam inúmeras outras determinações de indivíduos e grupos humanos que migraram para esta região, consolidando a complexa realidade social atualmente existente.

O exercício de resgate desta história, tomada como fundamental para mais bem compreender a “sociedade nortemineira” e, em conseqüência, a própria sociedade mineira, passaria pela reelaboração dos próprios parâmetros de tempo histórico. Parte-se do pressuposto de que a identificação e análise, numa perspectiva dialógica, destes tempos históricos (considerando a importância também de outros recortes), contribuiriam para lançar luz sobre estas identidades que se forjaram e se formam neste vasto território integrante do Estado de Minas Gerais.

A ideia de tempo histórico aqui defendida circunscreveria a relação ente “espaço de experiência” (Erfahrungsraum) e “horizonte de expectativa” (Erwartungshorizont) manifestadas em determinados presentes históricos. Estas categorias desenvolvidas pelo historiador alemão Reinhart Koselleck, seriam categorias que condicionam o próprio tempo histórico. Koselleck (2006, p. 308) diz que elas “[...] remetem a um dado antropológico prévio, sem o qual a história não seria possível, ou não poderia sequer ser imaginada”. Em outras palavras, reconstruir os tempos históricos da ancestralidade nortemineira e da primeira civilização colonizadora destas plagas entre as últimas décadas do século XVII e primeiras do século XVIII exigiria um esforço para se localizar aspectos significativos que caracterizem as experiências destes sujeitos sócio-históricos, bem como seus anseios e expectativas.

Este exercício não pode se restringir, no entanto, à determinação do tempo cronológico. Embora inevitável, ou seja, não é possível o seu descarte dado que o tempo histórico manifesta-se em seu bojo, ambos não se confundem. O tempo histórico não é natural e sim manifestação das ações do homem e de suas instituições.

Se para conhecer o mundo histórico é preciso responder como em cada presente as dimensões temporais do passado e do futuro se relacionam, tem-se que o interesse é o “ser” no tempo histórico. A temporalização, ou seja, o diálogo do passado com o futuro é o que torna possível tanto a história vivida, como a história conhecimento. A primeira referente ao empírico; a segunda a apropriação deste universo empírico pela Ciência. A tensão, portanto, entre passado e futuro, quando é impossível um transpor o outro sem que haja ruptura, remeteria a lógica da dinamicidade do tempo histórico.

Esta aproximação com o tempo histórico só seria possível por meio da linguagem. É ela em suas múltiplas manifestações que torna viável, por meio das formulações conceituas, lidar com os vestígios e se construir a partir deles os sentidos e as necessárias interpretações.

Os cerca de 12.000 anos de experiências e produção de sentidos do homem nesta região, impactada severamente pelo processo colonizador iniciado há cerca de três séculos, constituem um verdadeiro celeiro de possibilidades para se relevar não apenas quem são estes nortemineiros, oxalá também se indique o que é ser brasileiro.


* Historiador; especialista em História e Cultura Afro-brasileira; Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas. Autor do livro: Manga: encontro com a modernidade (2010) e de Terra de Contato (no prelo).  


Referências

COSTA, João Batista de Almeida. Mineiros e baianeiros: englobamento, exclusão e resistência. Brasília, 2003. Tese (Doutorado) – Departamento de Antropologia, UnB.

KOSELLECK, Reinhart. Futuro passado: contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: Contraponto/Editora PUCRio, 2006.

PROUS, André. O Brasil antes dos brasileiros: a pré-história de nosso país. 2. ed. revisada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.



Jovens cientistas do Portela (Manga) discutem “conhecimento escolar” e “conhecimento comunitário”

O ano de 2018, embora severamente marcado por uma danosa crise político-econômico-social que põe em xeque até mesmo o funcionamento da Escola pública, tem se caracterizado como um marco para a E.E. Ministro Petrônio Portela de Manga. Isto porque vem sendo desenvolvido um importante projeto de iniciação científica para alunos daquela Escola resultado de iniciativa da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG) por meio do Núcleo de Pesquisa e Estudos Africanos, Afrobrasileiros e da Diáspora (UBUNTU/NUPEAAS), com apoio da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Minas Gerais (FAPEMIG).

O projeto de iniciação científica para educandos do Ensino Médio intitulado “Caçadores de Conhecimento” (anteriormente: Africanidades) tem como objetivo investigar qual a relação dos “conhecimentos comunitários” das comunidades de Espinho e Malhadinha, localizadas no município de Manga, e o “conhecimento escolar” oferecido pelo Portela.

Conforme o Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva, orientador e responsável pelo referido projeto, “para além de reproduzir os interesses da ordem dominante, que nos últimos séculos é caracterizado pelo domínio das doutrinas liberais, e da condição de também ser lócus de resistência a este domínio, como mostra Saviani (2012), a Escola promove, por meio do conhecimento escolar, importantes diálogos com outros saberes. O seu caráter hegemônico é colocado em xeque neste diálogo extramuros, em que as demandas do mundo real de cada grupo humano exige a (re)invenção de saberes que sejam minimamente adequados para lidar com as exigências de uma sociedade que, em linhas gerais, se complexifica paulatinamente e em, cada vez, maior intensidade (SANTOS, 2015). Por isso que, neste estudo, pretende-se apresentar algumas considerações sobre o diálogo entre o “conhecimento escolar” oferecido pela E.E. Ministro Petrônio Portela de Manga, MG e os “conhecimentos comunitários” das comunidades de Espinho e Malhadinha, localizadas no mesmo município e que há algumas décadas possui alunos estudando na referida Escola”.

Algumas etapas da investigação vêm sendo desenvolvidas, a exemplo da realização de mini-cursos sobre produção científica, pesquisa de campo, discussões quanto aos parâmetros de pesquisa, produção de textos, elaboração de relatórios e estudos bibliográficos.

Ao final do período de investigação, além de contribuir para que educandos do Ensino Médio possam se aproximar da produção do conhecimento científico, fundamental para a vida em sociedades moderas, espera-se responder à demanda da pesquisa, ou seja, “em que medida o “conhecimento escolar” é reconhecido e utilizado por estudantes e moradores das referidas comunidades?”

*Imagem (no topo) dos jovens cientistas do Portela em evento realizado no dia 20 de novembro de 2018 em homenagem ao dia da Consciência Negra em Januária, MG.

Referências

SANTOS, Laymert. Educação desculturalizada. Página do autor, 2015. Disponível em: <https://www.laymert.com.br/educacao-desculturalizada/>. Acesso em: 02 dez. 2018.

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 42ª. ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2012.

terça-feira, 3 de abril de 2018

BREJO SÃO CAETANO (MANGA, MG) SEDE DA PRIMEIRA MATRIZ DE SANTO ANTÔNIO DA MANGA


(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva**) O Sertão dos currais do rio São Francisco, ou seja, o trecho médio do Velho Chico próximo, ao sul, aos rios Verde e Carinhanha foi o berço da ocupação colonial do que mais tarde viria a ser Minas Gerais. Um dos primeiros núcleos habitacionais foi o arraial de São Caetano do Japoré, atualmente Brejo São Caetano no município de Manga. Junto com a Tabua do potentado Manuel Nunes Viana, do Arraial de Matias Cardoso (saiba mais), constituíam os primeiros núcleos habitacionais dos colonizadores com população sedentária.

Em 1707, o português Atanásio de Cerqueira Brandão, casado com Catarina de Siqueira e Mendonça, irmã da esposa de Matias Cardoso de Almeida, recebeu uma sesmaria em Brejo Japoré (São Caetano do Japoré), então pertencente à freguesia de Rio Grande do Sul, Capitania de Pernambuco. Rapidamente a localidade se desenvolveu, tornando-se um dos principais núcleos habitacionais desta vasta região nas primeiras décadas do século XVIII.

A importância do lugar se revelou também ao ter se tornado sede da primeira matriz da Comarca Eclesiástica da Manga, que tinha ainda Olinda (sede), Ceará e Alagoas. Por determinação de D. Manuel Álvares da Costa, o 5º bispo da Diocese de Olinda, foi criada a Freguesia da Manga em São Caetano do Japoré, tendo orago, ou seja, o santo padroeiro, Santo Antônio.

O primeiro vigário foi Manuel Rodrigues Neto, nomeado, conforme alvará de 8 e abril de 1728, pelo rei de Portugal, D. João V. O segundo vigário foi o português, Antônio Mendes Santiago, que mais tarde se envolveria com a Sedição do São Francisco ocorrida em 1736.

Como as freguesias (paróquias) eram móveis, o padre Santiago, depois de um certo tempo no São Caetano do Japoré, transferiu a sua sede para Brejo do Salgado (Januária); pouco depois fez outra mudança, desta feita para São Romão; e, por fim, se fixou em Paracatu.


* Em breve você conhecerá em detalhes esta e outras incríveis histórias do Sertão dos currais do rio São Francisco (Norte de Minas) no livro TERRA DE CONTADO do Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

** Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas; Historiador;

Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Terra de Contato (no prelo).

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domingo, 4 de março de 2018

ARRAIAL DO MEIO: o arraial do bandeirante Matias Cardoso


(Prof. Mestre Paulo Robério Ferreira Silva*) O extremo Norte de Minas, região do Médio rio São Francisco próximo aos rios Verde e Carinhanha, foi palco na penúltima década do século XVII, ou mais especificamente entre 1684 e 1688 de intenso embate entre as tropas do bandeirante Matias Cardoso e os nativos anaió, senhores do rio São Francisco. Ao fim do da peleja surgiu a primeira povoação colonial sedentário no território que mais tarde seria Minas Gerais.

** Fragmento de um mapa do período que mostra o Arraial de Matias Cardoso.

Embora haja controvérsias entre historiadores quanto à localização do Arraial de Matias Cardoso (não é o de Morrinhos, atual cidade de Matias Cardoso), investigações recentes realizadas para o livro Terra de Contato nos ajudaram a “decifrar”, conforme documentação histórica referente e vestígios a localização desta povoação que, além de ser a mais antiga com população fixa, também foi uma das mais importantes do interior do Brasil no período colonial.

Matias Cardoso, ao ser contratado por Antônio Guedes de Brito em 1684 para a dita guerra contra os anaió, instalou o primeiro arraial, de cunho militar, na barra do rio Verde. Dado, possivelmente, as enchentes, transferiu o arraial para uma localidade um pouco acima. Neste lugar ergueu uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Bom Sucesso e em 1689 mais de 100 famílias paulistas se fixaram no Arraial de Matias Cardoso no Sertão do rio Francisco. Esta, portanto, foi a primeira ocupação colonial definitiva no território que a partir de 1720 seria a Capitania de Minas Gerais.

A instalação do arraial de Morrinhos só teria ocorrido anos depois por iniciativa de seu filho, Januário Cardoso de Almeida. Entre os moradores da região os três arraiais foram nomeados como: Arraial de Baixo (na foz do rio Verde); Arraial do Meio (um pouco abaixo do atual porto de Matias Cardoso); e Arraial de Cima (Morrinhos).

Na manhã deste domingo, 4 de março de 2018, ou seja, cerca de 330 anos depois, localizamos no Arraial do Meio (Arraial do bandeirante Matias Cardoso), uma série de vestígios das construções que ali foram erguidas, uma delas possivelmente a igreja de Nossa Senhora do Bom Sucesso.              

Em entrevista concedida pelos moradores soubemos que nos lugares destas construções antigas é, praticamente, impossível fazer escavações dado as pedras ali encontradas. Na mesma região, exceto nos lugares das construções, não se encontra pedra alguma. No mais, informaram ainda o encontro recorrente de esqueletos em escavações próximas a uma destas construções, o que pode indicar a existência de um cemitério antigo.

Trata-se, ao final de uma descoberta importante, pois além de dirimir as dúvidas que ainda existiam quanto à localização do Arraial do bandeirante Matias Cardoso, destacaria a importância desta região para a história do Brasil no período colonial, pois esta povoação foi uma das mais importantes no período de expansão colonialista rumo ao interior do Brasil.

Em breve você saberá de mais detalhes da história de Matias Cardoso, Januário Cardoso, Manuel Nunes Viana, os nativos anaió e muito mais no livro Terra de Contato (no prelo) do Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva.

Localização:


P.S.: Agradeço imensamente a contribuição de Seu João, Dona Rosa, Leandro, Janaína, Dona Petronília, Dona Durvalina e particularmente a Hélia Silva, pelo apoio e incondicional incentivo.



* Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas; Historiador;
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Terra de Contato (no prelo).

domingo, 28 de janeiro de 2018

280 ANOS DE FALECIMENTO DE MANUEL NUNES VIANA

(Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva*) Seria uma data a ser comemorada? Hoje, 28 de janeiro de 2018, fazem 280 anos do falecimento de Manuel Nunes Viana, o canguçu do Brasil, um dos homens que, segundo o historiador Charles Boxer, seria um dos construtores do Brasil no século XVIII. Entre tantos aspectos (e curiosidades) que envolvem a sua história e que você poderá conhecer em mais detalhes em breve no livro Terra de Contato (no prelo) do Prof. Mestre Paulo Robério Ferreira Silva, está o fato de Nunes Viana ter se instalado aos 22 anos em uma fortaleza construída a seu mando em 1690 as margens da lagoa dos Cinquenta, na Tabua, próximo a Manga Velha, território do atual município de Manga.

O Castelo da Tabua de Manuel Nunes Viana, também chamado de Castelo do Calindé (Calindó) foi uma obra suntuosa para o seu tempo. Suas ruínas ainda foram avistadas em meados dos século XX por moradores da região. Antes disso, entre 1909 e 1911, o Professor, escritor e pesquisador januarense Manoel Ambrósio visitou as suas ruínas. Em 1939, o historiador mineiro, Salomão de Vasconcellos, em visita a Manga entrevista um dos moradores que revela, entre outras coisas, como se manifestava o poder de Manuel Nunes Viana: “Ouvia sempre dizê que era um home danado aqui pr’o sertão. Todo mundo tinha terrô delle. Andava sempre com um magóte de gente junto co’elle, e tudo armado. Quando corria que ele é vinha, todo mundo tremia de medo”. (publicado no jornal Folha de Minas em 26 de março, um domingo, de 1939).

Entre os moradores da região da Tabua, sobretudo os mais velhos, ainda é comum a narrativa de “causos” sobre Manuel Nunes Viana. Seu Coelho (já falecido), morador do Brejo São Caetano que, na época de Viana se chamava São Caetano do Japoré, em entrevista em março de 2007 informa ter conhecido as ruínas do Castelo de Manuel Nunes Viana. Segundo ele havia uma torre e dela se avistava a “sombra do rio São Francisco”.

Entre tantos outros “feitos”, Manuel Nunes Viana, nascido em 1 de janeiro de 1668 em Viana do Minho, Portugal, e chegado ao Brasil ainda jovem, foi o grande líder dos “emboabas” na famosa Guerra dos Emboabas realizada entre baianos, pernambucanos e reinóis (oriundos de Portugal) e os paulistas na região das minas entre 1708 e 1709. Com a vitória dos emboabas, ou seja, daqueles que tinha os pés cobertos como galinha (utilizavam botas), contra os paulistas (estes foram expulsos da região das minas), Manuel Nunes Viana é aclamado pelo povo como governador e por cerca de um ano e meio exerce seu poder, a partir de Caeté, sobre a região das minas de ouro. Foi, desse modo, Viana o primeiro governador na América escolhido diretamente pelo povo.

Com o fim do seu governo, Manuel Nunes Viana retorna para o seu Castelo na Tabua e daí “governará” os Sertões do Piauí à região das minas como você saberá mais detalhes em breve no livro Terra de Contato.




* Mestre em Sociologia, Antropologia e Ciência Política pela PUC Minas; Historiador;
Especialista em História e Cultura Afro-brasileira pela PUC Minas; Gestão Escolar; e Qualidade da Educação Básica pelo EDUCOAS (OEA). Autor dos livros: Manga – encontro com a modernidade e Terra de Contato (no prelo).


domingo, 17 de dezembro de 2017

SENSO COMUM E FILOSOFIA: Qual você prefere? (Desvendando a Sociedade)

Reflita sobre isto:

“O senso comum tem sua própria necessidade; ele defende seu direito usando a única arma de que dispõe. Esta é o apelo à ‘evidência’ de suas pretensões e críticas. A filosofia, por sua vez, jamais pode refutar o senso comum, porque este não te ouvidos para sua linguagem. Pelo contrário, ela nem deve ter a intenção de refutá-lo porque o senso comum não tem olhos para aquilo a filosofia propõe para ser visto como essencial” (Martin Heidegger*).   

Logo,

Para quem se educa pela filosofia, ou seja: pela reflexão crítica da realidade, sair do meramente aparente é uma necessidade. Aquilo que se percebe facilmente, via de regra, não demonstra o que de fato é. Só a crítica filosófica possibilita desvendar a essência dos fenômenos.

Ao contrário, para aqueles que desprezam a filosofia, por vontade ou por impossibilidade, e isto significa a maioria expressiva da sociedade, o pensamento crítico é tido como um esforço desnecessário. Deste modo, a compreensão da realidade se dada pela repetição da informação. No mundo atual, a televisão (e também a internet) cumprem bem este papel.

Resultado,

Para um país que precisa de transformações urgentes e radicais, dado a falência de suas instituições, quando é evidente a necessidade da mobilização de seus cidadãos para tal fim, indica-se haver uma carência enorme de “pensamento crítico”, filosófico, que seja capaz de mobilizar esta sociedade na luta por interesses comuns. Qual seja: um país para todos indistintamente.

Prof. Mestre Paulo Robério F. Silva  


* Martin Heidegger (1889-1976) foi um filósofo alemão da corrente existencialista, um dos maiores filósofos do século XX. Foi professor e escritor, exercendo grande influência em intelectuais como Jean-Paul Sartre.